A Associação dos Trabalhadores da Indústria Leiteira (Atilra) antecipou a decisão da empresa, posteriormente confirmada pelo Juizado de Primeira Instância do Distrito 5 em matéria Cível e Comercial da Quarta Vara de Rafaela, sob responsabilidade do juiz Marcelo Gelcich, que conduz o caso.
Em comunicado publicado no site oficial que acompanha o processo, o tribunal informou que a SanCor, atualmente em recuperação judicial, apresentou pedido de própria falência — modalidade conhecida como falência indireta. A solicitação foi protocolada no âmbito do processo iniciado em fevereiro de 2025.
Segundo a nota, o pedido está baseado em decisão do Conselho de Administração da cooperativa, que convocou uma assembleia para ratificar a medida no próximo dia 30 de abril.
A SanCor carrega uma dívida de US$ 120 milhões. Isso foi determinado pelo juizado a partir da análise de 1.519 pedidos de verificação, sobre um total de 2.702 credores no âmbito do processo. Esse valor é composto por US$ 90 milhões e 40 bilhões de pesos (US$ 29,5 milhões), tendo como principais credores a Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro (ARCA) e fundos financeiros internacionais.
Além disso, foi identificada uma dívida próxima de 6,35 bilhões de pesos (US$ 4,68 milhões) acumulada após o início do processo de recuperação judicial. Em comunicado assinado pelo secretário-geral da Atilra, Etín Ponce, o sindicato afirmou que os relatórios apresentados pela administração judicial, pelo Comitê Provisório de Controle e pela coadministradora nomeada pelo Juizado convergem ao apontar estado de cessação de pagamentos, incapacidade operacional e insolvência patrimonial geral e definitiva da cooperativa. Diante desse cenário, segundo a entidade, a SanCor solicitou sua própria falência.
Embora a empresa ainda não tenha divulgado posicionamento oficial, nas últimas horas veio a público a convocação de uma assembleia extraordinária para o dia 30 de abril, em Sunchales, sede central da cooperativa. No terceiro item da pauta está prevista a ratificação da decisão do Conselho de Administração de apresentar o pedido de falência da SanCor.
Na avaliação do sindicato, a solicitação não altera substancialmente a situação já consolidada e apenas encerra uma postura que, segundo a entidade, insistia em negar a realidade financeira da companhia. A Atilra também sustenta que a cooperativa vinha se mantendo às custas do patrimônio dos trabalhadores, aos quais seriam devidos oito meses de salários, além do décimo terceiro.
O comunicado conclui afirmando que, para os empregados e para o sindicato, a eventual decretação da falência não representa o fim da história da empresa, mas o início de uma nova etapa. Na visão da entidade, a marca SanCor poderia se reerguer sem a estrutura que a levou à crise, apoiada na qualidade dos produtos fabricados por seus trabalhadores.
Fontes da indústria classificaram o desfecho como previsível, descrevendo o processo como a confirmação de uma crise anunciada. Na avaliação de agentes do setor, o fato de a própria empresa ter recorrido ao pedido de falência evidencia que já não restavam alternativas viáveis.
Um executivo da indústria láctea afirmou que a cooperativa permaneceu em operação por tempo excessivo, mesmo sustentada por um modelo considerado economicamente inviável. Segundo essa leitura, o desgaste financeiro e operacional registrado nos últimos meses poderia ter sido evitado com medidas tomadas de forma mais antecipada. A partir desse passo, há rumores que apareçam interessados por algumas plantas.
No fim do ano passado, o juiz Gelcich, responsável pelo processo da empresa láctea, decidiu pela intervenção na cooperativa diante dos recorrentes descumprimentos por parte da companhia, especialmente no pagamento de salários e no envio das informações detalhadas solicitadas pela Justiça.
Na decisão, Gelcich destacou três problemas graves apontados pela administração judicial e pelo Comitê de Controle. O primeiro deles foi a resistência em fornecer informações. Segundo o magistrado, a empresa não apresentou documentação clara sobre a operação de suas plantas, os contratos firmados com outras companhias, os volumes produzidos, a forma de comercialização, os valores recebidos e a destinação desses recursos.
O segundo ponto citado foi a crise trabalhista e previdenciária enfrentada pela SanCor. De acordo com o Comitê Provisório de Controle, a cooperativa deve salários desde junho de 2025, além do pagamento integral do décimo terceiro daquele ano. O documento também menciona denúncias sobre o uso de contracheques com dados supostamente falsos para evitar contribuições à seguridade social.
SanCor e sua queda
A SanCor foi fundada em 1938 como cooperativa de produtores de leite e, durante décadas, ocupou posição de liderança no setor. Segundo dados do Observatório da Cadeia Láctea Argentina (OCLA), em 1994 a empresa processava 4,6 milhões de litros por dia, o maior volume da indústria nacional.
Com o passar dos anos, porém, perdeu participação de mercado. Em 2009, o volume havia recuado para 3 milhões de litros diários, colocando a cooperativa na segunda posição. Já em 2022, caiu para o 12º lugar do ranking, com pouco mais de 533 mil litros por dia.
Atualmente, segundo fontes do setor, a cooperativa processa cerca de 700 mil litros diários, somando produção própria e de terceiros, distribuídos em seis plantas localizadas nas províncias de Santa Fé e Córdoba. O número está muito distante dos volumes históricos que fizeram da empresa uma referência no mercado argentino.
As seis unidades seguem em operação, embora com níveis variados de atividade. O leite próprio é direcionado aos produtos de maior rentabilidade, enquanto a companhia mantém acordos com diferentes empresas para fabricar itens específicos — alguns por encomenda, outros com participação nos resultados e outros remunerados por custo.
A situação se agravou entre 2023 e 2024, em meio a prolongados conflitos sindicais com a Atilra, que resultaram em bloqueios nas plantas e atrasos salariais. Esse cenário acabou levando a SanCor ao processo de recuperação judicial, protocolado em fevereiro de 2025.
Outro fator relevante para o colapso da tradicional empresa láctea foi o conflito comercial com a Venezuela, originado a partir dos acordos bilaterais firmados desde 2006 entre os governos de Hugo Chávez e Néstor Kirchner.
A SanCor participou do Fundo Fiduciário Bilateral entre Argentina e Venezuela, mecanismo criado para viabilizar a troca de combustível venezuelano por produtos argentinos. Paralelamente, também realizou vendas adicionais para empresas controladas pelo Estado venezuelano.
O problema surgiu quando a Venezuela entrou em default, em 2017, e deixou de honrar pagamentos. Segundo fontes próximas à cooperativa, a dívida chegou a superar US$ 30 milhões. Parte desse valor foi quitada ao longo do tempo, mas ainda restariam cerca de US$ 18 milhões, com chances remotas de recuperação.
A empresa buscou, em diferentes momentos, apoio de sucessivos governos argentinos para tentar destravar a cobrança e recuperar os recursos, mas nenhuma das iniciativas avançou.
As informações são do Clarín, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.
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