A nutrição adequada fortalece o sistema imunológico, reduz a incidência de doenças metabólicas, melhora o desempenho reprodutivo e aumenta a longevidade produtiva das vacas. Logo, animais saudáveis demandam menos intervenções medicamentosas, reduzindo custos, riscos de resíduos no leite e impactos ambientais, equilibrando os pilares ambiental, econômico e social da sustentabilidade.
O uso de estratégias bem planejadas, como o de aditivos nutricionais por exemplo, podem contribuir para redução dos impactos ambientais, em termos de mitigação das emissões de metano, um dos principais gases de efeito estufa associado à pecuária, na redução da excreção de nitrogênio e fósforo, minimizando riscos de contaminação da água e do solo, dentre outros. aspi
Polifenóis da cana-de-acúcar
A cana-de-açúcar (Saccharum spp.) é amplamente conhecida por sua importância econômica na produção de açúcar, etanol e energia. Além desses produtos tradicionais, a cana também é uma rica fonte de compostos bioativos, com destaque para os polifenóis, substâncias naturais com reconhecida atividade antioxidante, anti-inflamatória e antimicrobiana.
No contexto da nutrição animal, especialmente na alimentação de ruminantes, os polifenóis presentes em coprodutos da cana podem exercer efeitos benéficos sobre a fermentação ruminal, auxiliando no controle da produção de metano, na modulação da microbiota ruminal e na melhoria da eficiência alimentar.
Sendo assim, os polifenóis da cana-de-açúcar representam uma importante estratégia nutricional, com amplo potencial de aplicação e benefícios os sistemas de produção leiteira. Isso porque, a suplementação alimentar com polifenóis pode melhorar a produção e a qualidade do leite, especialmente no controle da mastite, beneficiando tanto os animais quanto os produtores de leite, garantindo a sustentabilidade.
Um estudo* conduzido no Instituto de Zootecnia de Nova Odessa-SP avaliou os resultados da suplementação com polifenóis da cana de açúcar em dezesseis vacas da raça Holandesa para as características de produção de leite e contagem de células somáticas. O experimento teve duração de 49 dias e fez o acompanhamento dos animais divididos aleatoriamente em dois grupos: controle (sem suplementação de polifenóis na dieta) e tratamento (com suplementação de 50ml/dia na dieta).
A dieta consistiu em 35% de silagem de sorgo, 10% de resíduos de cervejaria, 10% de feno de Tifton e 45% de concentrado comercial com 20% de proteína bruta, e era oferecida duas vezes ao dia em um sistema de ração total misturada, imediatamente após cada ordenha. As vacas eram ordenhadas duas vezes ao dia (7h e 15h) e a produção de leite era registrada eletronicamente.
Todos os casos de mastite clínica identificados todo o leite considerado impróprio para consumo e comercialização foi medido diariamente. Apesar de resultados não significativos estatisticamente para a produção de leite, com valores médios de 19,7 e 21,8 kg/dia, respectivamente para os grupos controle e tratamento, a contagem de células somáticas apresentou resultado de grande relevância para a pecuária leiteira, considerando os prejuízos causados pela mastite nos rebanhos e consequentemente financeiros as propriedades.
As vacas que receberam a suplementação com polifenóis apresentaram resultados mais satisfatórios, com contagem média de 238.000 células/mL, aproximadamente 40% abaixo do grupo controle. Na figura 1 e tabela 1 apresentam-se os dados coletados de células somáticas e para o volume de leite impróprio para consumo e consequentemente descartado, respectivamente.
Figura 1 – Variação semanada da Contagem de Células Somáticas (x1000 cs/mL) para os grupos estudados.
Tabela 1 - Volume de leite produzido, descartado e % do volume total descatado por grupo com ou sem uso de suplementação de polifenóis na dieta.
|
Grupo |
Volume de leite produzido (L) |
Volume de leite descartado (L) |
% de leite descartado |
|
Controle |
7,667 |
1.664 |
21,5 |
|
Tratamento |
8.407 |
427 |
5,1 |
Adaptado de Marino et. al (2024).
O uso do extrato polifenólico de cana de açúcar nas dietas de vacas em lactação apresentou-se como uma boa alternativa sustentável, melhorando a qualidade, reduzindo a contagem de células somáticas e reduzindo o descarte de leite. Isso nos permite observar o impacto do extrato polifenólico na dieta das vacas sobre aspectos da produção e qualidade do leite.
Essa resposta pode ser um efeito direto das propriedades benéficas ao sistema imunológico das vacas, ou o produto pode até mesmo apresentar aspectos antimicrobianos que controlam patógenos causadores de mastite. Além disso, é importante destacar os aspectos de sustentabilidade envolvidos no uso de polifenóis da cana-de-açúcar na dieta de vacas lactantes, como o menor uso de antibióticos, relacionado ao uso racional e à possível redução da resistência bacteriana, e o menor descarte de leite, o que pode prevenir a contaminação da água e do solo.
* Resumo publicado e premiado no X CBQL – Congresso Brasileiro de Qualidade do Leite, realizado em Florianópolis-SC, 2024.
Agradecimentos: The Product Makers do Brasil – TPM.