O começo: a vaca Cacundinha
Quando o casal Camila Leipelt de Freitas e o físico Thiago Benetti de Freitas se mudaram para a zona rural, seguindo a vocação da esposa, engenheira agrícola de formação, a tradição local de presentear os recém-casados trouxe uma surpresa. Enquanto na cidade ganha-se liquidificadores, no interior, o enxoval ganha vida. Foi assim que apareceu a Cacundinha, uma vaca holandesa de descarte, com o ligamento central rompido e apenas três tetos funcionais.
O destino original da Cacundinha era o abate, mas a conexão emocional falou mais alto. "A gente não teve coragem de matar a Cacundinha... ela virou quase que uma vaca pet", recordam. Rebatizada de Pretinha, a vaca que era "o ó das vacas" surpreendeu a todos. Em meio a 47 hectares de pasto abundante e cuidados dedicados, ela desafiou as estatísticas: no auge da lactação, chegou a produzir 24 litros de leite por dia. "Esse homem [o doador] não acreditou. Ele foi lá nas duas ordenhas do dia para ver se a vaca estava realmente dando os 24 litros... e ele se apavorou".
Quando a saúde vira missão
A transição de um hobby para um negócio com propósito ocorreu a partir da saúde do filho do casal, Germano. O bebê enfrentava sérias dificuldades de amamentação e não ganhava peso, sem se adaptar bem às fórmulas infantis e aos leites disponíveis no mercado.
Seguindo o conselho de uma vizinha, o casal ofereceu leite da Pretinha ao filho. “Pela primeira vez ele ingeriu um leite que não regurgitou, não botou para fora e que permaneceu bem no organismo.” O episódio foi um divisor de águas. “Se isso fez bem para o nosso filho, por que não levar essa alternativa também para outras pessoas?”
A percepção de que aquele alimento poderia contribuir para o bem-estar e a nutrição tornou-se o pilar central do que viria a ser o laticínio.
Da França para a Serra Gaúcha: técnica e identidade
Se a motivação veio da Pretinha e de Germano, o refinamento técnico veio da bagagem de Camila. Com formação no INRAE (Instituto Nacional de Pesquisa para Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente), na França, referência mundial em tecnologia de alimentos, ela começou a transformar o excedente de leite em queijos e iogurtes que rapidamente "abarrotaram" a geladeira da casa. O sucesso foi imediato entre os colegas de trabalho do marido e vizinhos, que começaram a demandar aqueles produtos diferenciados.
O nome inicial, "Delícias do Pago", logo deu lugar à Benolle (uma junção dos sobrenomes da família), após o casal perceber que sua ambição era ser um "grande laticínio" em qualidade e especialização, não necessariamente em volume industrial.
O desafio da pureza e a conquista do selo orgânico
O caminho para a certificação orgânica e o selo SISBI-POA (Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal), que permite a venda em todo o território nacional, foi, nas palavras dos fundadores, "uma lenda". Além da burocracia inerente ao setor lácteo, a mudança para o município de Glorinha exigiu um novo período de carência da terra e adaptação do rebanho ao manejo 100% livre de agrotóxicos.
A filosofia da Benolle é o "minimalismo no rótulo". O iogurte da Benolle é composto estritamente por leite e fermento lácteo. Esse rigor reflete-se no paladar: utilizam uma fermentação italiana que resulta em um produto menos ácido e mais cremoso. "O iogurte de fermentação nacional é conhecido por ser mais agressivo... o nosso não dá essa 'travada' no final da língua".
Inovação e o futuro
A pequena produção, que hoje processa entre 100 e 120 litros de leite por dia de rebanho próprio, não tem medo de ousar. Na última Expointer, a Benolle chamou a atenção com lançamentos exclusivos, como o iogurte à base de rosas e o de bergamota com capim-limão.
Apesar dos desafios logísticos e do alto custo da cadeia do frio no Brasil, o casal segue firme na agricultura familiar, agora com os quatro filhos envolvidos no cotidiano da fazenda. A Benolle prova que o mercado orgânico deixou de ser moda para se tornar uma realidade. O que começou com uma vaca de três tetos, transformou-se em uma referência de identidade e valor no cenário artesanal brasileiro.
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