O objetivo do manejo reprodutivo é maximizar o número de vacas que emprenham no início da lactação, permitindo atingir um intervalo entre partos (IEP) adequado para cada sistema de produção. Para isso, a eficiência reprodutiva deve ser constantemente monitorada por meio de indicadores-chave, com destaque para a taxa de serviço (TS), taxa de concepção (TC) e taxa de prenhez a cada 21 dias (TP21d). Esses indicadores são, em geral, mensurados em intervalos de 21 dias, utilizando softwares de gerenciamento ou planilhas específicas adotadas pelos técnicos de campo.
A TS representa a eficiência da fazenda em inseminar vacas aptas. Por exemplo, se 100 vacas estão aptas em determinado período e 50 são inseminadas, a TS é de 50%. A TC é uma medida de fertilidade, sendo calculada como a proporção de vacas gestantes em relação ao total de vacas inseminadas. Assim, se 15 das 50 vacas inseminadas ficam prenhes, a TC é de 30%. Já a TP21d representa a velocidade que as vacas emprenham a cada intervalo de 21 dias, e é calculada pelo número de vacas que emprenham em relação ao total de vacas aptas.
No exemplo anterior, 15 vacas gestantes em 100 aptas resultam em TP21d de 15%. Didaticamente, a TP21d pode ser entendida como o produto entre TS e TC (TS × TC), o que evidencia a importância de ambos os componentes para o desempenho final do sistema. Portanto, no nosso exemplo, 50% (TS) x 30% (TC) = 15% (TP21d). Outro indicador importante é a porcentagem de vacas que emprenham até determinada fase da lactação, como, por exemplo, até os 150 dias em lactação (DEL), sendo este um reflexo direto da eficiência reprodutiva acumulada no início da lactação.
Do ponto de vista prático, dois dos principais gargalos das fazendas leiteiras são as baixas TS e TC. As razões para a baixa TS são diversas, sendo a principal a dificuldade e baixa eficiência de detecção de cio. Isso se deve a alguns fatores, como a porcentagem de vacas em condição anovulatória ou anestro no rebanho, a qual pode variar de 5 a 50%, por exemplo. Ou seja, nessas situações, uma parcela significativa das vacas não será inseminada com base na detecção de cio, pois simplesmente não estão ciclando e demonstrando cio. Além disso, mesmo em vacas ciclando, a detecção de cio em rebanhos leiteiros é desafiadora. O aumento da produção de leite está associado a maior consumo de matéria seca, o que eleva o fluxo sanguíneo hepático e o catabolismo de hormônios esteroides. Como o estradiol é o principal hormônio responsável pela manifestação dos sinais de cio, sua redução na circulação resulta em menor intensidade e duração do comportamento de cio, ou até mesmo ausência dos sinais de cio.
Além disso, outros fatores também influenciam a ciclicidade, a expressão e a detecção de cio, incluindo saúde no período de transição, escore de condição corporal, estresse térmico, nutrição, ambiente, manejo e qualidade da mão de obra. Nesse aspecto, a inseminação artificial em tempo fixo (IATF) traz um dos seus principais benefícios: o aumento na TS. A IATF baseia-se na manipulação farmacológica da dinâmica folicular e do ambiente endócrino, permitindo a sincronização da ovulação e a realização da inseminação em momento predeterminado, sem a necessidade de detecção de cio. Dessa forma, a adoção de programas de IATF aumenta substancialmente a TS, sendo atualmente uma estratégia bem estabelecida e amplamente aplicada em sistemas leiteiros.
Em relação à TC, o desafio é ainda maior, uma vez que a fertilidade é influenciada por múltiplos fatores. Independentemente da estratégia de inseminação (cio ou IATF), a TC é impactada por problemas de saúde durante o período de transição e início da lactação, nutrição, estresse térmico, escore de condição corporal, genética, sanidade geral do rebanho, qualidade do sêmen e dos procedimentos relacionados à inseminação e pelo próprio programa de IATF utilizado. Portanto, a fazenda e os técnicos devem ter uma visão holística do sistema de produção, buscando entender e controlar fatores que impactam a fertilidade, além do próprio manejo reprodutivo. Ainda assim, existe uma importante janela de oportunidade para aumento da TC, especialmente relacionada à escolha e à otimização dos programas reprodutivos.
O 1º serviço pós-parto – O Carro chefe da reprodução
O 1º serviço pós-parto é o carro-chefe da reprodução. A boa notícia é que existem estratégias específicas capazes de otimizar tanto a TS quanto a TC nesse momento. A recomendação é o uso de 100% de IATF para o 1º serviço pós-parto, garantindo que todas as vacas sejam inseminadas ao final do período de espera voluntário (PEV), eliminando as dificuldades da baixa eficiência em detecção de cio, permitindo atingir 100% de TS nesse 1º serviço, caso todas as vacas elegíveis entrem em um programa de IATF e sejam inseminadas em tempo fixo. Uma forma prática de avaliar a eficiência do primeiro serviço é por meio do monitoramento do DEL à primeira inseminação.
A concentração das inseminações logo após o PEV indica um sistema eficiente, enquanto a dispersão dos serviços ao longo do tempo reflete falhas na execução do manejo. Para exemplificar o impacto da IATF no 1º serviço pós-parto, a Figura 1 apresenta a distribuição do DEL da 1ª IA de uma fazenda leiteira em que a estratégia para o 1º serviço era detecção de cio (Período 1) e muda para 100% de IATF (Período 2). Podemos observar que essa alteração de manejo resultou na concentração das inseminações ao final do PEV e poucas vacas atrasando para receber o 1º serviço pós-parto. Isso resulta em aumento da TS e maior probabilidade de as vacas emprenharem no início da lactação.
Figura 1. Distribuição do dia em lactação (DEL) da 1ª inseminação artificial (IA) pós-parto de uma fazenda leiteira de acordo com estratégia utilizada para o 1º serviço pós-parto. Período 1: detecção de cio. Período 2: 100% de IATF para o 1º serviço pós-parto. Consentini et al. (2021).
Em um estudo recente, no qual compilamos resultados de 50 fazendas leiteiras, realizamos análises de correlação entre os indicadores reprodutivos. A análise de correlação permite avaliar como duas variáveis se relacionam entre si, podendo ser uma correlação negativa (conforme uma variável aumenta, a outra diminui) ou positiva (conforme uma variável aumenta, a outra também aumenta). Além disso, é possível quantificar a força dessa relação por meio do coeficiente de correlação (valor de r), que varia de -1 a +1 — quanto mais próximo de +1, mais forte é a correlação positiva entre as variáveis. A Tabela 2 apresenta os valores de r entre TS, TC geral, TC somente na 1ª IA e os indicadores de desempenho: TP21d e porcentagem de vacas prenhes até 150 DEL. De forma geral, todos os indicadores apresentaram correlação positiva com TP21d e prenhez aos 150 DEL, indicando que melhorias em TS e TC contribuem para o aumento do desempenho reprodutivo. No entanto, o destaque é para a TC na 1ª IA, que apresentou as maiores correlações com ambos os indicadores.
Tabela 1. Análise de correlação entre taxa de serviço, taxa de concepção geral e taxa de concepção na 1ª IA com a taxa de prenhez 21 dias e porcentagem de vacas que emprenham até 150 DEL. O valor de r se refere ao coeficiente de correlação entre os indicadores reprodutivos das colunas da tabela com os indicadores das linhas da tabela. Quanto mais próximo de 1, maior a correlação. Consentini et al. (2024).
| Item | Taxa de serviço | Taxa de concepção geral | Taxa de concepção na 1ª IA |
|---|---|---|---|
| Taxa de prenhez aos 21 dias | r = 0,54 | r = 0,66 | r = 0,72 |
| % de vacas que emprenham até 150 DEL | r = 0,51 | r = 0,53 | r = 0,62 |
A Figura 2 representa de forma visual a relação entre TC na 1ª IA e TP21d e porcentagem de vacas gestantes até 150 DEL. Percebe-se a correlação positiva de TC na 1ª IA com as duas variáveis analisadas. Esse resultado reforça a importância do 1º serviço pós-parto, não só com relação a inseminar a vaca com eficiência ao final do PEV, mas também atingir alta fertilidade nessa primeira IA, aumentando significativamente a chance de prenhez no início da lactação.
Figura 2. Relação entre taxa de concepção na primeira IA e taxa de prenhez a cada 21 dias (2A) e porcentagem de vacas gestantes até 150 DEL (2B). Consentini et al. (2024)
A combinação do uso de protocolos de pré-sincronização antes do protocolo de IATF é chamada de Programas de Fertilidade, pois sabidamente aumentam a TC comparado com vacas inseminadas em cio ou então submetidas a protocolos menos otimizados. Portanto, esses programas de fertilidade colaboram com a melhora dos dois gargalos mencionados, garantem a inseminação das vacas (cumprem o objetivo da IATF), aumentando a TS, e não só isso, também aumentam a TC, que é crucial para atingir altas TP21d. Um ponto importante é que a utilização da pré-sincronização no 1º serviço pós-parto não atrasa o início da reprodução, pois os manejos são realizados durante o período de espera voluntário (PEV). Além disso, esses programas permitem atingir altas taxas de concepção em campo, frequentemente iguais ou superiores a 50%. Implementando essa estratégia e atingindo esses índices, a chance de sucesso no desempenho reprodutivo é muito alta. No nosso próximo artigo, iremos explorar na prática os principais programas de IATF incluindo pré-sincronizações, específicos para aumentar a fertilidade do 1º serviço pós-parto.
Carlos Consentini1, Alexandre Prata1, Paulo Carvalho2, Alexandre Souza3, Tiago Ferreira4 Roberto Sartori5, Milo Wiltbank6
1GlobalGen vet science, 2ST Genetics, 3CEVA Saúde Animal, 4ALTA Genetics,5ESALQ/USP, 6University of Wisconsin-Madison