Quando o problema exige diagnóstico, não tentativa
Um dos momentos mais emblemáticos de sua trajetória surgiu diante de um desafio recorrente na fazenda: falhas na reprodução. Vacas repetindo cio, baixa taxa de prenhez e ausência de respostas claras colocavam em risco a eficiência do sistema.
Sem respostas objetivas no campo, Tânia tomou uma decisão que mudaria o rumo da situação: aprofundar a investigação. “Percebi que precisávamos entender o que realmente estava acontecendo. Não dava mais para seguir tentando sem saber a causa.”
A partir da realização de exames específicos, veio o diagnóstico — e, com ele, a possibilidade de agir com precisão. Parte do rebanho demandava tratamento direcionado, algo que até então não havia sido identificado.
A correção foi rápida nos efeitos, mas resultado de uma decisão estratégica: sair do empirismo e avançar para uma gestão baseada em informação. “Depois que tratamos os animais, os resultados começaram a aparecer. As vacas passaram a emprenhar e conseguimos resolver grande parte do problema.”
Mais do que resolver uma falha pontual, o episódio consolidou uma lógica de trabalho: entender o porquê antes de agir.
Produção contínua exige gestão constante
Na visão de Tânia, a atividade leiteira não permite interrupções — e tampouco decisões improvisadas. “A produção de leite não tem pausa. A rotina começa cedo e os problemas não avisam.”
Esse cenário exige mais do que dedicação operacional. Exige estrutura de gestão, capacidade de organização e disciplina para lidar com variáveis técnicas, econômicas e humanas ao mesmo tempo.
Para ela, um dos erros mais comuns é dissociar produção e administração, como se fossem esferas independentes. Na prática, são complementares — e igualmente determinantes para o resultado. “A fazenda é uma empresa a céu aberto. Precisa de controle, planejamento e decisões bem tomadas todos os dias.”
Sem formação exclusivamente teórica, Tânia construiu sua visão a partir da experiência. Erros, ajustes e aprendizado contínuo formaram a base do seu modelo de condução. “Aprendi vivendo. No dia a dia, entendendo o que funciona e o que precisa mudar.”
Identidade não limita — sustenta
Ao abordar o papel da mulher no agro, Tânia traz uma reflexão direta sobre identidade e posicionamento. Para ela, não há necessidade de adaptação a padrões para conquistar espaço. “Não diminua quem você é para caber em nenhum rótulo.”
Ela defende que a atuação na atividade leiteira pode — e deve — ser múltipla. Estar na lida, participar da ordenha, conduzir a gestão e tomar decisões estratégicas não exclui outras dimensões da identidade pessoal. “Você pode estar no campo, trabalhar na propriedade e, ao mesmo tempo, se cuidar, se arrumar e se sentir bem. Uma coisa não anula a outra.”
A combinação entre força e sensibilidade, frequentemente associada à presença feminina no setor, aparece em sua fala não como contraste, mas como complementaridade. “Ser mulher no agro é isso: ter firmeza nas decisões, mas também sensibilidade no dia a dia.”
No fim, sua mensagem converge para autonomia. Crescer na atividade leiteira não significa se moldar ao ambiente, mas construir espaço a partir da própria essência. “Você pode ser tudo o que quiser — do seu jeito, no seu tempo e com orgulho de quem você é.”
O Especial Leite por Elas segue aberto para novas histórias de mulheres que, com decisões consistentes, visão prática e identidade própria, seguem transformando a produção leiteira brasileira.
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