Quando tratar sem saber custa caro — e aprender muda tudo
Uma das viradas mais relevantes da fazenda veio de um problema recorrente e silencioso: mastite mal resolvida. Sem cultura microbiológica, o tratamento seguia o padrão comum de muitas propriedades — baseado em tentativa. “Era como caminhar no escuro. Ou acertava, ou não acertava.” O resultado veio em forma de prejuízo técnico e econômico: casos recorrentes, vacas com mastite crônicas e CCS (contagem de células somáticas) em níveis elevados, chegando a 1 milhão células/mL.
A decisão de mudar partiu de Marjori
Ela buscou capacitação, trouxe tecnologia de fora do país e implantou, dentro da própria fazenda, um sistema de cultura microbiológica com placas. Mais do que isso: assumiu pessoalmente o processo — da coleta à análise. A lógica mudou completamente.
Cada caso passou a ser investigado antes de tratado. Amostras são coletadas individualmente e analisadas. Só então, a decisão terapêutica é tomada. O impacto foi direto: a CCS caiu de 1 milhão para cerca de 350 mil células/mL.
Mas o ganho não foi apenas técnico — foi econômico. Hoje, cerca de 40% dos casos analisados não demandam uso de antibiótico. “Em um cenário de 100 vacas testadas, considerando que cada caso de mastite pode custar entre R$800 e R$900 por animal, isso representa uma economia que chega a R$32 mil ao evitar tratamentos desnecessários e descarte de leite”, comentou Marjorie.
Mais do que reduzir custos, a mudança consolidou um princípio: não existe eficiência sem o controle microbiológico em casos de mastite.
Aprender fazendo — e decidir ficando
A relação de Marjori com a atividade começou cedo, ainda na adolescência. Criada na fazenda, aos 14 anos já estava inserida na rotina com os animais. Aos 18, tomou uma decisão que redefiniria o futuro do negócio: tornou-se sócia do pai. Naquele momento, optou por interromper a faculdade de medicina veterinária para permanecer na propriedade. “Se eu não tivesse ficado, talvez meu pai não tivesse investido e a gente não teria dado continuidade.”
Ao longo dos anos, buscou formação prática e técnica em diferentes regiões do país, com cursos em áreas como casqueamento, criação de bezerras e manejo. Parte do conhecimento veio da vivência dos pais, construída ao longo de uma trajetória que começou com poucas vacas e evoluiu gradualmente. Outra parte veio da inquietação de quem aprende fazendo. Hoje, Marjori está retomando a graduação, consolidando academicamente uma base que já foi construída no campo, entre erros, acertos e decisões reais.
Gestão é dividir responsabilidade — não fazer tudo
Dentro da Fazenda Bom Sucesso, há uma clareza rara sobre papéis. Marjori não tenta dominar todas as áreas — e vê nisso um dos pontos chave para a eficiência. “Você precisa entender onde tem facilidade e onde pode contribuir mais.”
Enquanto ela lidera áreas como qualidade do leite, casqueamento e análise de dados, outras frentes — como nutrição — ficam sob responsabilidade de quem tem maior afinidade. A lógica é simples, mas pouco praticada: especialização dentro da própria fazenda. Em vez de centralizar, o modelo distribui responsabilidade com base em competência e interesse. O resultado é mais profundidade técnica e menos desgaste operacional.
Ao olhar para o papel da mulher no agro, Marjori parte de uma mudança concreta que viveu de perto. Se antes a presença feminina estava mais restrita à ordenha e às atividades domésticas, hoje o cenário é outro: mulheres assumindo gestão, decisões financeiras, implementação de tecnologias e condução estratégica das propriedades.
Mas, para ela, esse avanço traz um ponto de atenção
Crescer no setor não pode significar perder identidade. “Não ter receio de se posicionar — mesmo em um ambiente majoritariamente masculino — é fundamental.” Ao mesmo tempo, ela reforça que há um diferencial que precisa ser preservado: a feminilidade. Não como estética, mas como forma de olhar e conduzir.
Na criação de bezerras, por exemplo, ela observa um cuidado diferente, mais atento, mais próximo. Um comportamento que associa ao instinto materno e que impacta diretamente no bem-estar animal e nos resultados. “A mulher tem um olhar mais detalhado. E isso faz diferença no dia a dia.” Para Marjori, firmeza e sensibilidade não são opostos — são complementares.
Produzir resultado sem abrir mão de si
Ao falar com outras mulheres, seu conselho passa longe de fórmulas prontas. O ponto de partida é o autoconhecimento. Entender onde se encaixa, no que se é boa, o que faz sentido dentro da operação — e, a partir disso, buscar capacitação e assumir espaço.
Nem tudo é sobre dinheiro. É também sobre estar em uma função que faz sentido todos os dias. “Não adianta acordar e fazer algo só por obrigação.” A construção de espaço, segundo ela, vem de posicionamento, consistência e clareza sobre o que se quer. E, junto disso, a manutenção de algo que considera inegociável: o próprio jeito de ser.
Do campo para o digital: conhecimento que escala
Além da atuação na fazenda, Marjori também estruturou uma forma de compartilhar conhecimento. Criou o curso “Criando Bezerras Saudáveis”, onde organiza, de forma prática, todo o manejo — do preparo da baia de parto ao aleitamento, colostragem e banco de colostro. O objetivo é claro: levar informação de qualidade para dentro das fazendas, respeitando o tempo e a rotina de quem produz.
Sem necessidade de deslocamento, o conteúdo fica disponível ao longo do ano, permitindo que o aprendizado aconteça no ritmo do produtor. A trajetória de Marjori Ghellar mostra que o resultado consistente na produção de leite não nasce de acaso — nasce de decisão bem tomada, conhecimento aplicado e coragem para assumir responsabilidade.
E, talvez tão importante quanto isso, da capacidade de crescer sem se desconectar da própria essência.
O Especial Leite por Elas segue reunindo histórias de mulheres que estão, todos os dias, redefinindo o que é produzir leite no Brasil — com técnica, gestão e identidade.