Com base nessa identificação, a inseminação artificial (IA) é conduzida segundo a regra AM–PM, na qual vacas detectadas em estro no período da manhã são inseminadas à tarde, enquanto aquelas identificadas no período da tarde ou à noite são inseminadas na manhã seguinte, buscando maior proximidade com o momento da ovulação.
Entretanto, a observação visual apresenta limitações que comprometem sua eficiência. Fatores relacionados ao sistema de produção, ao tipo de alojamento (confinamento ou pastejo), às características do piso, à habilidade do observador e ao tempo destinado à observação — recomendado em torno de 30 minutos, duas a três vezes ao dia — influenciam diretamente a acurácia desse método.
Além disso, a maior expressão dos comportamentos estrais durante o período noturno e fatores intrínsecos às fêmeas, como paridade e nível de produção, impactam negativamente a detecção, uma vez que vacas de alta produção tendem a apresentar menor duração e intensidade dos sinais de estro.
Nesse contexto, os sistemas automatizados de monitoramento de atividade (AAM) têm sido utilizados como ferramentas auxiliares no manejo reprodutivo. Comercialmente disponíveis na forma de pedômetros ou acelerômetros, esses sistemas baseiam-se na identificação de alterações nos padrões comportamentais das vacas, como aumento da atividade física e do número de passos, mudanças no tempo de repouso e alimentação, além da redução do tempo de ruminação, para identificar estros e predizer o momento da IA.
Os sistemas AAM permitem o monitoramento contínuo das fêmeas, com transmissão automática dos dados para softwares que os processam e convertem em indicadores e representações gráficas (Figura 1A). Quando as alterações comportamentais atingem um limiar pré-estabelecido, um alerta de estro é emitido, e alguns sistemas ainda fornecem uma janela temporal recomendada para a realização da IA (Figura 1B).
Figura 1 – Gráfico gerado pelo sistema de monitoramento automatizado de atividade. Pode ser observados as variáveis intensidade de estro, ruminação, repouso e outros. Linhas contínuas representam as informações do animal observado e linhas pontilhadas a média do rebanho (A). Alerta de estro enviado pelo sistema, demonstrando o tempo e recomendação para realização da inseminação (B). Fonte: Zago et al; 2026.
Dessa forma, a determinação do momento mais adequado para a realização da IA após o alerta, bem como a avaliação da eficiência de detecção de estro dos sistemas AAM, são aspectos fundamentais para maximizar a eficiência reprodutiva em rebanhos leiteiros em pastejo.
Em estudo conduzido pelo Grupo de Estudos em Reprodução Animal (GERA) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em parceria com uma empresa fornecedora de sistemas AAM, foram analisados dados de 2.718 inseminações realizadas em 1.626 vacas leiteiras equipadas com coleiras, pertencentes a uma propriedade comercial manejada em sistema de pastejo semi-intensivo, localizada na região Nordeste do Brasil. O objetivo foi determinar o melhor momento para a realização da IA após o alerta e estimar a eficiência de detecção de estro do sistema bem como avaliar a associação entre a intensidade de estro mensurada e as taxas de prenhez .
Os resultados indicam que o melhor momento para a realização da IA ocorre até 20 horas após o alerta de estro, visto que vacas inseminadas dentro desse intervalo apresentam maiores taxas de prenhez (Figura 2). Observou-se uma eficiência de 73% na detecção de eventos de estro pelo sistema avaliado, valor próximo ao descrito na literatura, que relata eficiência em torno de 80% para vacas mantidas em confinamento.
Figura 2 – Taxa de prenhez (%) de acordo com o intervalo entre o alerta de estro e a inseminação artificial (IA) em horas, classificado como <5 h, 5 a > 9 h, 9 a >20 h, 20 a >24 h e >24 h. Tons de verde indicam intervalos associados a maiores taxas de prenhez, enquanto o laranja representa o intervalo com menor desempenho reprodutivo. Letras diferentes acima das barras indicam diferença significativa entre os intervalos (P < 0,05). Fonte: Zago et al; 2026.
A mensuração de intensidade pelo sistema se baseia em um score de 0 a 100%, sendo considerado o início estro, e enviado o alerta, quando ultrapassa 40%. Os dados do estudo sugerem que vacas com intensidade de estro acima de 80% apresentam maiores taxas de prenhez. Os resultados indicam que vacas com menor número de dias em lactação (DEL) apresentam maiores taxas de retorno ao estro e retornos irregulares, possivelmente em função de desafios do período pós-parto, como anestro, distúrbios metabólicos e enfermidades uterinas.
Em conjunto, os resultados demonstram que os sistemas AAM são ferramentas viáveis para a detecção de estro em sistemas produtivos mais complexos, desde que associados ao ajuste adequado do momento da inseminação e ao manejo criterioso do período pós-parto, visando garantir elevada eficiência reprodutiva do rebanho.